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Taxa rosa faz mulheres pagarem mais caro pelos mesmos produtos

Produtos como lâminas de barbear e depilar, desodorantes, mamadeiras, camisetas básicas e peças íntimas costumam ser mais caros quando destinados ao público feminino e têm a cor rosa. Este fenômeno é conhecido como “taxa rosa” ou “pink tax” e não se restringe ao Brasil, mas o contexto econômico brasileiro pode agravar a situação.

A “taxa rosa” ocorre quando um produto direcionado às mulheres é mais caro que o mesmo produto para homens. “Não estou comparando uma roupa feminina com uma masculina de tecidos ou cortes diferentes. Estou falando de itens exatamente iguais. Por exemplo, uma lâmina de barbear rosa é mais cara,” explica Flavia Marimpietri, advogada e professora de direito do consumidor na Faculdade Baiana de Direito.

Segundo a Abrafarma, em três grandes farmácias do varejo nacional, aparelhos de depilar femininos custam mais que os masculinos e são vendidos em menor quantidade. Por exemplo, um pacote de aparelhos de barbear masculinos contém quatro unidades descartáveis, com três lâminas cada, dupla fita lubrificante, cabeça móvel e cabo texturizado. Já o pacote feminino contém três unidades descartáveis, com três lâminas cada, fita lubrificante, cabeça móvel, cabo texturizado e fragrância.

Em pesquisa realizada no dia 25 de julho, na Drogasil e Droga Raia, a diferença de preço entre lâminas depiladoras femininas e lâminas de barbear masculinas foi de R$ 11,21. Na rede Pague Menos, a diferença foi de R$ 2.

A “taxa rosa” também é evidente em desodorantes, camisetas básicas, meias e peças íntimas, além de itens infantis. Lorena Hakak, professora da FGV RI e presidente da GeFam, comenta que a “taxa rosa” afeta até mesmo produtos infantis. “Duas mochilas iguais, uma com desenho de princesa e outra de carrinho, têm uma diferença de preço enorme.”

Diferenças de preço também são observadas em mamadeiras azuis e rosas da mesma marca e tamanho. Na Droga Raia, a diferença foi de R$ 3,98; na Drogaria São Paulo, R$ 0,71; e na rede Pague Menos, R$ 15.

Hakak afirma que a “taxa rosa” funciona como um imposto sobre o consumo. “É como se fosse um custo regressivo, onde quem ganha menos paga proporcionalmente mais, agravando a desigualdade existente.” Marimpietri acrescenta que no Brasil, onde as mulheres ganham menos que os homens nos mesmos cargos, a “taxa rosa” é ainda mais injusta, pois elas acabam pagando mais caro por certos produtos.

Além disso, produtos exclusivos para mulheres, como absorventes, têm alta carga tributária. “Quase 30% do preço de um absorvente é imposto, mesmo sendo um item imprescindível. Isso já é uma discriminação,” destaca Marimpietri.

No Brasil, não há uma lei específica que proíba a “taxa rosa”. “Temos dispositivos legais que, por interpretação, podem ser entendidos como discriminação. A Constituição garante igualdade de gênero, e o Código de Defesa do Consumidor proíbe discriminação por gênero,” afirma Marimpietri.

Para as especialistas, é essencial conscientizar a população sobre a “taxa rosa”. “Muitas pessoas nem percebem essa prática antiga. É preciso boicotar certos produtos para que haja mudança no futuro,” diz Marimpietri. Hakak sugere que os consumidores optem por produtos similares quando perceberem a “taxa rosa”.

Procurada pela reportagem, a Drogaria São Paulo informou que houve um erro na precificação do produto, que deveria ter o mesmo valor em ambas as versões. A Drogasil, Droga Raia e a rede Pague Menos não comentaram.

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